comeu, bebeu, falou
fodeu, mijou
palavra, fui eu
.
preso à prosa
so(u)letra
o escravo e a rosa
.
parto ao meio
nasço nonada
nomeio
[2008-09]
comeu, bebeu, falou
fodeu, mijou
palavra, fui eu
.
preso à prosa
so(u)letra
o escravo e a rosa
.
parto ao meio
nasço nonada
nomeio
[2008-09]
um dia é tudo uma pequena mancha no céu
são gritos na linha do horizonte
pequeno como se não existisse
e não existe mesmo
e do nada vem chegando
no meio da fumaça
o que era claro se ilumina
o que era esquisito se ajeita
o que era só tolo era eu
deitado na areia como antes
tentei falar as coisas que meu coração não viu
e as pessoas todas
todas todas
colares e contas de um fio comprido
azul, vermelho sujo
limão
e o ritmo da dança
amigo chão
fiz cabeça pa caboco luzu
mas sem saber
sem saber coisa de coisa nenhuma
esbarrei nas coisas na casa
coisa de coisa de coisa e
a fé é o chão que pisamos
em tudo acredito
e no acredito vai longe
vai aqui lugar nenhum
um grande movimento de amor e união
sucede esta noite
entre eu e você
deuses ridículos rindo disso e daquilo
meu coração queria dar de presente
deixar
(o trabalho que se segue
ouvir)
vamos juntos
[mar 2009]
FLAGRADA NUA SÓ DE MAIÔ (nese)
[mai 2009]
pode morrer de rir?
.
[c. 1990]
[1993]
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trágica princesa
nessa noite de luar
todo sentimento
veio se apresentar
ondas de tormento e paz
no meu peito vêm falar
águas de um rio
de um amor que nascerá aqui
nessa história tudo se parece com sonhar
rezo minha prece para o bem se aproximar
lua consciência
nuvens, quero ir
nessa noite escura hei de passar a minha vida
.
[Luciano Pessoa, letra e música, 1998]
[No CD 'Paraíso Eu', da Lu Horta, a canção recebeu o nome de 'A carta da Lua']
dia branco
dia branco
todo o sonho da terra
envolve nos braços e sobe ao céu
envolve nos braços e sobe ao céu
não tenho estrela
só tenho uma estrela
verdadeira lá no alto da colina
que é de manhã, se levanta e dorme
que é de manhã, se levanta e dorme
[jan 2002]
Palavra, carta, vento. Os mares do sul, rabisca, emenda, fulgor… mas já é tarde, dorme, dorme. As crianças estão sonhando com adultos. E o cavalinho na areia. Inverno, inverno, ancião. Céu de agosto, meu pai, adentra minha alma, me torna menos idiota. Recolhe os prantos, recolhe o véu dos meus olhos pequeninos. Ou véu de amor, luz de amor, tempo de amor, busca de caminho, o que há.
[ago 2007]
deus, deus
desejo que se deu
proteja me projeta
começo, meço e fim
o que vejo
olha por mim
[mar 2009]
[Clique aqui para ouvir. Aguarde carregar o áudio]
boa noite minha senhora
boa noite meu senhor
eu estou chegando agora
vim no toque do tambor
eu sou do céu estrelado
ouço a sua presença
viemos de peito aberto
vamos com a sua bença
eu venho de muito longe
sou um mistério profundo
eu saí da minha casa
para conhecer o mundo
sou a carneluz do sonho
sou bonito pra cachorro
vi dizer que a vida mata
mas eu mesmo nunca morro
meu chapéu de rei palhaço
meu estandarte de forro
esse coração rasgado
costura linha de ouro
chega a noite vem o dia
gira o sol menina lua
para a dança do destino
danço no meio da rua
tome seu lugar no coro
vai sair essa aventura
deus ilumine o caminho
cuide da cabeça dura
boa noite minha senhora
boa noite meu senhor
vou levando na lembrança
essa noite de amor
volto como tudo volta
para onde começou
eu estou partindo agora
vou no toque do tambor
[1996]
Por que os olhos choram?
Por que as moscas tremem?
Por que as montanhas esperam?
Onde estão os bravos guerreiros do passado?
Amanhecerá?
Onde está o coração vazio e alegre?
Por que o aroma da rosa?
Do alto da torre, na pequena janela, o traço de um rosto, um rosto de moça, verdade, não vi. Apagou-se a lâmpada, alegria, música, eu cantei como jamais cantei. O dia.
Nunca vi um sino dobrado. No campo, sozinho. E as nuvens, o céu, o rio. Viajo em silêncio.
Tudo vai se mostrar, um dia. No farol, da luz, de Deus. E não restará perda sobre perda. Amor e amor se vão. O abraço na praia, o imerso, o crime do tonto. Quem era sua mãe? E o pai, quem era?
Perdi a saudade. Vou. Atravesso a noite sem uma carta. Só escuto a coruja, que me olha.
[dez 2006]
então são óleos que a chuva traz
ou vem alguém e te entrega
tudo ter e ser
mas não ser nada
lugares
tão vivos
o nome da fruta mais estranha
mesmo um bem sem motivo aparente
então são óleos que a chuva traz
Maria
o quase nada
uma vontade de acordar…
[abr 2004]
por que um homem não pode morrer?
por que um homem não pode voar?
por que um homem não está caído na praia?
por que um homem não lembra mais o céu cinza do dia retangular?
foi o sonho do amor que sonhou o sonho da guerra?
por que um homem não sabe nada?
por que um homem abraça suas vestes?
[mar 1997]
jo puedo falar lo que soy,
y o que mereço
jo soy una historia sin fim,
nim comieço
jo puedo ser tudo, porém,
tudo tiene un preço
se jueve la lluvia,
por fim, agradeço
[mar 2006]
Quem sabe, se os homens velhos que governam os países e gostam de matar pessoas que moram em outro país, porque se sentem fortes com seus exércitos, porque se sentem contentes com os bracinhos fortes de seus soldados e seus mísseis alegres, quem sabe se atacassem primeiro suas próprias cidades!
Quem sabe a guerra acabava mais cedo! Com sorte dava tempo de voltar pra casa, que fosse uma escola, um hospital, tomar banho, relaxar, abrir uma cerveja e pensar tranquilamente na criatividade humana e na sua condição de macho. No azul irreal vem uma, depois outra estrela da tarde, o cheiro do óleo, poeira e pele queimada. Eu olho as pernas e o vestido preto de uma mulher que caminha, ou finge caminhar, entre vozes, cartazes e carros prateados.
[ago 2006]
não temos escolha
partimos
nossa pequena bagagem
superfície
ainda assim, mal e bem, acredito
história
contraste
atenção
e os sons das árvores:
— onde estás tu?
[ago 2006]
antes de morrer
queria acordar um dia com o sorriso de um bebê
abrir uma janela para um quintal antigo
molhar a cabeça no tanque e sair de casa pra comprar pão
tocar de leve a página branca do dia
mais tarde ligar para o prefeito e perguntar se ele tem um minuto
viajar à noite
vender pamonha numa variant azul com alto-falante no pólo norte
voltar pra casa
esperar o fim do dia no telhado
adormecer com uma xícara de chá e um poema simples
como a chuva e o esquecimento
[dez 2001]
Tem uns 40 anos, meu pai apareceu em casa com um AeroWillis marrom, ocupava a garagem inteira até em cima, e tinha um quê ainda daqueles carros imitando rabo de peixe. Dava pra levar um monte de gente do lado de dentro, família, amigos, primos, umas 20 pessoas ao todo. Ainda não havia carro popular, e o Brasil era só tricampeão do mundo. Por que uma jamanta daquele tamanho queria imitar um peixe? Não consigo imaginar.
Algumas horas depois vimos a seleção perder da Holanda, o time do carrossel, por 2 a zero, e o Leão, esse que acabou de fugir do Palmeiras, era o goleiro. Não teve culpa. Mas foi a primeira copa que assistimos pela TV colorida, e tinha um botão pra deixar as cores mais fortes. Laranja, bem laranja. Verde, bem verde. O Brasil jogou de camisa azul. E perdeu.
Muito, muito tempo antes que ganhássemos a copa outra vez, eu já era quase um adulto e de vez em quando ia passear no parque da Universidade de São Paulo, lá no Butantã. Lá tem um relógio pregado numa torre, e em volta, no chão, está escrito assim: “no universo da cultura o centro está em toda parte”. Por que uma jamanta como aquela ia querer uma frase como essa em volta de um relógio? Não faço a menor idéia.
Nessa época, você ligava o rádio para ouvir rock nacional, o PT era um partido de esquerda, e ninguém tinha computador em casa. Mas o meu amigo Maurício tinha. Ele falava a língua do bicho, e depois foi trabalhar numa loja onde conheceu o Bill Gates pessoalmente. Na época a tela do computador mostrava duas cores: fundo preto, texto verde. Tocávamos em uma banda chamada Confederação Indo Pelo Corredor, e um dia o Maurício me mostrou um programa que gerava palavras. Uma das palavras era DARDERTEDRIMPA. Não sei porque, nunca me esqueci dela.
Foi um ano antes que a América se curvasse ante o Brasil, com aquele time que empatava os adversários, que comprei meu primeiro computador. Empatar deve ser um gesto com a pata. Tinha o Dunga, que batia com a testa nos companheiros de equipe para mantê-los acordados. E o Parreira, que é uma árvore que solta as folhas no inverno e permite que o sol ilumine as plantas mais baixas, como a grama.
O meu computador era um garboso Macintosh IIvx, com um monitor colorido que mostrava várias cores. O Tony estava fazendo o primeiro número da Macmania, e levou a capa para ver em cores lá em casa, nesse monitor. Aquela capa com o índio usando um powerbook. Nessa revista tinha um anúncio do Quadra 605 por U$2,720, e a primeira mulher seminua aparecia só na página 6, e era um desenho. Um bom desenho. Fiquei pensando em como o índio faria para manter o hardware atualizado, em como ele faria para conseguir tanto dinheiro, e também no upgrade que esse powerbook representaria na vida sentimental desse índio. Assim, pensando nisso, foi que continuei usando computadores ano após ano, computadores cada vez mais lentos e obsoletos, e sonhando com computadores cada vez mais potentes e belos.
Mês passado, meu pai, com 84 anos, fez uma cirurgia de catarata, que é uma doença em que o olho fica branco como as cachoeiras de verdade. As lágrimas não derramadas cristalizam dentro do olho e vão formando um véu, que é para proteger a pessoa da tristeza que encontra nessa longa estrada da vida. Na cirurgia eles trocam a lente do olho por uma novinha, só que não é natural. Não saiu de dentro do corpo, nem de você, nem da sua mãe, nem de nenhuma pessoa que você conhece. Leva um tempo até a pessoa ver a coisa com outros olhos.
Eu, com 43 anos, talvez faça essa cirurgia este ano, ano que vem. Nos últimos 14 passei umas 28.827 horas e meia olhando pra essa telinha. Terá tido alguma influência? Difícil afirmar. Os relatórios médicos são inconclusivos. Os hotsites sussurram palavras como extremo poder, riqueza de detalhes, e toda a liberdade da imaginação.
Daqui a 40 anos talvez não haja mais nenhum urso polar, e o computador nasça junto com as casas, como a água que sai da torneira. Talvez a catarata, a dor de cabeça e nas costas tenham tirado umas férias. Mas como disse uma vez o Darcy Ribeiro, é preciso estar atento, sempre, como os índios, ao que acontece, em nós e ao nosso redor. Mas atento a que mesmo? Assim que lembrar eu mando um email.
[ago 2006, crônica publicada na Revista Mac+ (ed.Digerati) e no site Portal Literal http://www.portalliteral.com.br]